Agtech de rastreabilidade gera eficiência e transparência para o agro sustentável

CEO da AgTrace explica como tecnologias de rastreabilidade dão sentido a dados fragmentados, reduzem perdas do agronegócio e o tornam mais sustentável
rastreabilidade no agro

Você foi ao mercado e comprou um quilo de arroz. Qual é a história deste produto e o seu impacto na sociedade e no meio-ambiente? Foi produzido adotando-se práticas sustentáveis e regenerativas? O produtor adotou práticas trabalhistas socialmente responsáveis? O alimento é saudável? Essas e outras questões podem ser respondidas quando as cadeias produtivas do agronegócio adotam estratégias e tecnologias de rastreabilidade (a capacidade de conhecer a trajetória de um produto desde a sua produção e manufatura até a entrega ao cliente).

Para entender com maior profundidade a importância da rastreabilidade no agro, e como ela é vital para impulsionar o setor a um padrão ESG, agroRESET conversou com Andre Maltz Turkienicz, co-fundador & CEO da AgTrace, startup que oferece uma solução para conectar todos os elos da cadeia produtiva, garantindo informações confiáveis, seguras e em tempo real.

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Em uma série de três matérias, o leitor irá entender como tecnologias de rastreabilidade consolidam uma grande quantidade de dados, garantindo maior eficiência e transparência à cadeia produtiva, ajuda a abrir novos mercados ao agro brasileiro e como podem viabilizar esquemas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) a produtores que mantenham a floresta em pé em suas reservas legais.

Rastreabilidade consolida dados dispersos do agro

Tecnologias como a da AgTrace são capazes de consolidar e dar sentido a uma grande quantidade de dados da cadeia do agro que se encontram dispersos. Essa consolidação resulta em maior eficiência e transparência na cadeia produtiva, como se verá a seguir.

“A fragmentação desse ecossistema é muito grande. Os dados estão espalhados em vários formatos diferentes, em vários lugares diferentes. Então precisa cada vez mais se criar uma linguagem comum. A gente adota alguns padrões de operabilidade. Por exemplo, a GS1, que são protocolos que estão por trás dos códigos de barras. A nossa plataforma fala a linguagem da GS1 para facilitar essa troca de dados de informação. O próprio blockchain possibilita muito isso”, explica Andre.

Uma vantagem dessa consolidação de dados proporcionada por tecnologias de rastreabilidade é facilitar que o produtor comprove que está adequado à legislação ambiental brasileira, considerada a mais avançada e rígida do mundo, e ter acesso a crédito rural que exija boas práticas socioambientais.

“O [setor] público tem o seu papel, a sua importância. Mas a inovação e o setor privado têm que colaborar para isso acontecer de uma maneira mais rápida. Quando a gente olha [o setor] público hoje… para um produtor comprovar uma legitimidade socioambiental, ele pega todos os cadastros e consulta várias bases de dados que estão embaixo de vários ministérios diferentes. É uma estrutura muito difícil. Se for esperar isso se unificar vai demorar muito tempo. Existem soluções que estão plugando todas essas bases de dados através de tecnologia, consolidando tudo isso e entregando para o produtor uma solução muito mais fácil que possibilita que ele tire crédito rural de uma maneira muito mais barata, mais rápida e eficiente. Então não dá para a gente esperar que o setor público vá resolver tudo sozinho.”

Mais eficiência e menos desperdício na cadeia produtiva

Sabe-se que um terço dos alimentos produzidos no mundo é desperdiçado.

O dado foi divulgado em 2021 pelo relatório “The State of Food Security and Nutrition in the World”, publicado pela UNEP – Programa Ambiental das Nações Unidas. Essa perda de alimentos envolve desde a fase de produção até o ponto de venda e o desperdício na casa do consumidor. Em valores absolutos, isso representa mais de 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos perdidos e desperdiçados.

Apenas eliminando-se essas perdas já seria possível eliminar a fome do mundo.

“Isso é um problema de 1,5 trilhões de dólares. Ou seja, tem uma oportunidade gigantesca aí para a gente reduzir isso. E a rastreabilidade tem um papel tremendo nisso, para controlar a informação de ponta a ponta e ir diminuindo [as perdas] e aumentando a eficiência na cadeia do agro. E aí, quando a gente olha a realidade da cadeia, a gente vê uma cadeia super fragmentada, vários atores, pouca informação fluindo ao longo desta cadeia”, explica Andre.

Retomando as consequências da fragmentação dos dados na cadeia do agro, complementa:

“Hoje os dados da cadeia do agro ficam muito perdidos em silos diferentes e isso acaba retardando uma série de tomadas de decisões que contribuem para esse desperdício. Hoje as informações que transitam na cadeia também são muito superficiais. Não levam junto informações referentes à sustentabilidade, por exemplo. É muito difícil, isso fica muito preso dentro da porteira e é extremamente importante levar essa informação para frente”.

Transparência proporciona confiança para o produtor e abre mercados

Outro benefício da rastreabilidade é proporcionar maior transparência para as cadeias produtivas do agro. O que pode demonstrar com dados a segurança alimentar dos produtos agropecuários, assim como se foram produzidos com sustentabilidade ambiental e responsabilidade social. Tudo isso se traduz em maior confiabilidade dos produtores e pode abrir mercados, tema que será aprofundado na segunda matéria desta série.

Mais uma vez, a consolidação de dados é vital. Andre explica que cerca de 70% dos dados relacionados à sustentabilidade são gerados dentro da porteira (da fazenda). Porém, se esses dados não são integrados, eles se perdem e não chegam ao conhecimento do público.

“Por exemplo, a utilização do insumo é medida dentro da fazenda. Então boa parte do impacto ambiental, se você medir ele da porteira para dentro, a informação se perde. Então é muita eficiência operacional, muita garantia de qualidade e segurança do produto”.

Cenário global incerto aumenta a pressão por segurança alimentar

Para concluir, Andre explica que o cenário global atual, que combina uma crise pós-pandemia e a guerra entre Rússia e Ucrânia, evidenciou os riscos de uma cadeia globalizada de alimentos e aumentou ainda mais a pressão por segurança alimentar. E que a rastreabilidade ajuda a reduzir os riscos deste cenário.

“A rastreabilidade ajuda a reduzir esses riscos e a levar mais transparência para o consumidor final. Como eu pego toda essa informação da cadeia e levo isso de uma forma consumível para gerar o diferencial, o produto para estabelecer uma relação de longo prazo para o cliente final através da rastreabilidade? Então, a rastreabilidade para a gente é muito mais um meio do que o fim. Eu não estou usando a rastreabilidade só para saber de onde o produtor veio ou para onde ele foi, eu uso a rastreabilidade para ter informação necessária para responder todos esses pontos de transparência e eficiência”.

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