Entenda a pegada hídrica da pecuária brasileira

Saiba tudo o que é preciso para avaliar o consumo de água para a criação de bovinos, caprinos, suínos e aves
Gado leiteiro bebendo água no Rio Pomba, em área do município de Guarani (MG). Pegada hídrica. Pecuária sustentável. AgroReset.

A primeira matéria desta série sobre pecuária mostrou que avaliar a sustentabilidade dessa atividade econômica é mais complexo do que geralmente se considera. Esta segunda parte aborda uma questão essencial para o tema: o uso de recursos hídricos e a pegada hídrica da pecuária brasileira.

A mídia tradicional costuma ressaltar que a pecuária consome um grande volume de água. Isto está correto, mas não é suficiente para avaliar a questão.

Mais uma vez, o pesquisador da Embrapa, Julio Palhares, explicou o assunto para o AgroReset. Resumidamente, é preciso entender o volume de consumo de água, assim como a sua pegada hídrica, relacionando-a com a oferta hídrica local. É uma avaliação mais profunda do que informar quanta água a pecuária consome. As próximas sessões da presente matéria explicam esses temas.

Antes de tudo, é deve-se ressaltar que o Brasil é um país muito rico em recursos hídricos, porém eles são distribuídos de maneira desigual entre as diferentes regiões.

“O Brasil detém 12% da água doce superficial do planeta. De 60% a 65% dessa água se concentra na bacia do rio Amazonas, a maior bacia hidrográfica do planeta. Que não é a região em que estão as maiores cidades, indústrias e a maior produção de alimentos. Isso se concentra na região centro-sul do país, que não é tão rica em água. Por isso, é importante cuidar da água, como a crise hídrica atual deixa claro”, explica Júlio.

Além da maior parte dos recursos hídricos estarem concentrados na região norte, é também lá que se originam os chamados rios voadores, responsáveis por mais de metade das chuvas na região centro-sul, na qual está 70% do PIB agrícola do país.

Afinal, quanta água a agropecuária consome?

Um estudo da Agência Nacional de Águas (ANA), publicado em 2019, mostra que a produção de alimentos é a grande consumidora de água no Brasil.

A agropecuária é responsável por 84% do consumo de água do país. O restante se divide entre atividade industriais, consumo para as pessoas na cidade e nas áreas rurais e em serviços (incluindo o comércio das cidades). Desse percentual, 73% são usados para irrigação e os outros 11% são para o consumo de água para dessedentação animal (matar a sede dos animais).

Por que a agropecuária consome tanta água? Júlio explica:

“Países com o perfil econômico que nós temos, de produtores de commodities agropecuárias, têm a produção de alimentos como o seu grande consumo de água. Quando você vai para países desenvolvidos, onde a atividade industrial e de serviços é muito intensa, a agropecuária não é o grande representante do consumo de água”.

Enfim, a agropecuária brasileira consome muita água porque produz muito alimento. Como informado anteriormente, dados da Embrapa indicam que a produção agropecuária brasileira é capaz de alimentar 1,2 bilhão de pessoas (aproximadamente 15% da população mundial).

Mas apenas esse dado isoladamente diz muito pouco.

É preciso entender e considerar a pegada hídrica. Pois os dados da ANA medem somente a água que entra pela boca dos animais, para matar a sua sede (dessedentação animal). Para entender o consumo de água, na pecuária ou em qualquer outra atividade econômica, é preciso considerar a pegada hídrica.

Afinal, o que é pegada hídrica?

Segundo a Water Footprint Network, “a pegada hídrica é a medida da apropriação pela humanidade da água doce em quantidade de água consumida e/ou poluída” (tradução nossa).

Cada produto tem a sua pegada hídrica. Por exemplo, a pegada hídrica da carne bovina é diferente da soja, que é diferente de produtos de outros setores, como moda ou eletrodomésticos.

Além disso, o cálculo da pegada hídrica de um bem leva em consideração o consumo de água em todas as etapas da produção até que ele chegue ao consumidor.

No caso da pecuária, inclui, por exemplo, a água usada nas seguintes etapas: 1) Irrigação para a produção de grãos usados como ração; 2) Dessedentação animal; 3) Lavagem de equipamentos e instalações das fazendas; 4) Transporte da carne até o supermercado ou açougue; 5) Lavagem do estabelecimento comercial.

Nesse cenário, o uso da água para dessedentação animal (dado considerado pelo estudo da ANA) representa menos de 0,5% da pegada hídrica da carne.

A pegada hídrica da pecuária costuma ser maior do que a de produtos agrícolas. Mesmo porque ela inclui a água usada para irrigar os grãos que depois alimentam os animais. Ou seja, a pegada hídrica da produção de carne inclui a de produção agrícola em seu cálculo.

Compare abaixo a pegada de alguns produtos agropecuários:

  1. Chocolate: 17 mil litros por quilo
  2. Carne bovina: 15 mil litros por quilo
  3. Carne suína: 6 mil litros por quilo
  4. Frango: 4 mil litros por quilo
  5. Maçã: 800 litros por quilo

Entendendo a pegada hídrica mais a fundo: água verde, azul e cinza

Mas não basta saber quantos litros de água são consumidos para a produção de um alimento. É preciso também entender os tipos de água que entram no cálculo da pegada hídrica. Esses tipos são três: água verde, azul e cinza.

Água verde

É aquela que vem da precipitação das chuvas, é armazenada no solo e depois evaporada, transpirada ou incorporada pelas plantas. E que então entra na boca do animal pela alimentação (pasto ou ração).

“Água verde é você calcular, através de abordagens agronômicas, todos os alimentos que entram pela boca do animal em água.”.

Água azul

É a água captada de recursos hídricos superficiais ou fontes subterrâneas. É usada para dessedentação animal e irrigação de culturas.

“É aquela que o animal bebe. Se eu irriguei uma cultura que alimentou o animal isso também é água azul. Se lavei uma instalação, eu captei água, então isso é água azul.”

Água cinza

É a água doce necessária para assimilar poluentes emitidos. A pegada hídrica cinza considera a poluição de origem pontual descarregada em um recurso de água doce.

“A maioria dos sistemas animais produz um efluente, um esgoto que a natureza tem que absorver. Então você calcula quanto de água a natureza vai consumir para absorver aquele esgoto”.

Entender esses três tipos de água considerados no cálculo da pegada hídrica é importante para saber como comparar a pegada da pegada brasileira com a de outros países, como será explicado adiante.

Comparando a pegada hídrica da pecuária brasileira com a de outro países

A pegada hídrica da pecuária brasileira tende a ser maior do que a média mundial. Porém, é necessário colocar essa diferença em contexto.

A média global foi calculada baseando-se em um sistema de produção típico do hemisfério norte. Que é uma produção de animais confinados, enquanto no Brasil pratica-se um sistema de produção baseado na criação a pasto. Essa diferença se reverte em uma pegada hídrica média maior.

Porém, o Brasil tem uma vantagem, quando se considera os três tipos de água que são considerados no cálculo da pegada hídrica. Na pecuária brasileira, a porcentagem de água verde na pegada hídrica é muito grande. Enquanto na pecuária americana e européia, embora a água verde continue representando a maior parte, há mais água azul e cinza do que aqui.

“Ambientalmente, é muito melhor você ser dependente de uma água verde, porque a fonte dela é a chuva, do que ter dependência de uma água azul ou de uma água cinza. Pois a água azul é aquela que você tira das fontes. E em uma fonte você tem várias demandas para uma única oferta. Então, a cada vez que você tira mais, pode contribuir para uma situação de escassez e de conflito. E a água cinza está relacionada à poluição. Quanto maior a tua água cinza, maior o teu potencial poluidor. Então, apesar da nossa pegada hídrica ter valores um pouco maiores, a nossa dependência de água verde é muito maior do que a de outros países. Ambientalmente isso nos dá uma sensação de conforto”.

Pegada hídrica X oferta hídrica: água é um fator local

Mas entender a pegada hídrica da pecuária também não é suficiente. É preciso relacioná-la à oferta hídrica do local de produção.

Júlio explica:

“Pegada hídrica é diferente de pegada de carbono em que as emissões de um local entram em um ciclo global e vão aquecer o planeta como um todo. Água não é assim, é um fator local. Não adianta dizer qual é a sua pegada hídrica, o número em si não quer dizer muita coisa. Você tem que relacionar à oferta hídrica do local da fazenda ou do sistema de produção.”

Segundo o pesquisador, o critério que geralmente se adota é: se a pegada hídrica representa até 40% da oferta hídrica do local, o impacto é baixo e há uma situação de conforto. A atividade passa a ser considerada insustentável em relação a recursos hídricos quando a pegada hídrica representa mais de 40% da oferta. Em alguns casos, chega a superar 100% da oferta local, gerando uma situação drástica.


As duas primeiras partes dessa série sobre pecuária se dedicaram a desfazer mitos e fazer entender como avaliar o impacto ambiental da atividade é mais complexo do que geralmente se considera. A terceira e última parte indicará caminhos para a pecuária sustentável no Brasil.

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