Como tornar a pecuária sustentável?

Nutrição animal, uso de água e energia devem ser racionalizados para dar sustentabilidade à atividade
Pecuária de corte. Pecuária sustentável. AgroReset.

A pecuária é uma atividade econômica fundamental para o Brasil e,  com a adoção de práticas corretas e conhecimento científico, pode ser uma aliada do desenvolvimento sustentável. AgroReset conversou com o pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste e especialista em recursos hídricos, Júlio Palhares, para entender o que torna possível uma pecuária sustentável.

O resultado é a série de matérias que se encerra agora. A primeira matéria desfaz mitos comuns, a segunda explica a pegada hídrica da pecuária. E a presente matéria explica práticas que dão mais sustentabilidade à pecuária.

A sustentabilidade da pecuária depende de outros elos da cadeia do agronegócio

Um passo importante para uma pecuária sustentável é olhar para além da criação de animais em si. Pois outros elos da cadeia impactam, positiva ou negativamente, na sua sustentabilidade.

Por exemplo, atualmente o gado no Brasil não é mais criado apenas a pasto. São usados grãos para a sua nutrição, como o milho e a soja, entre outros. De modo geral, eles não são cultivados na fazenda do produtor pecuarista e costumam ser comprados de outros produtores.

“Se uma fazenda de gado no centro-oeste faz tudo direitinho, mas compra soja de uma área de desmatamento, a carne vai ter esse passivo ambiental. A gente tem que entender que essas coisas não são separadas”, explica Júlio.

Portanto, um caminho para uma pecuária sustentável é comprar grãos de quem produz sem desmatamento, com práticas conservacionistas do solo (como Plantio Direto), da água (por exemplo, terraceamento) e sem uso inadequado de agrotóxicos (para isso, a agricultura de precisão contribui para usá-lo apenas quando fundamentais e na dosagem correta, sem danos ao solo e à saúde).

O mesmo acontece com fertilizantes, cada vez mais usados por pecuaristas para adubar a pastagem. O Brasil é um grande importador de fertilizantes à base de fósforo, nitrogênio e potássio, comprados de países como Marrocos e da Rússia. “Se lá for produzido com passivo ambiental, você traz isso pro seu produto também”.

Nutrição animal é chave

Júlio explica, “quando a gente pensa em produção animal, a chave de tudo é a nutrição. É a partir da nutrição que se tem o grande consumo de insumos, onde vai haver o grande potencial poluidor”.

Quando a nutrição, seja por ração ou pasto, é de má qualidade, o animal absorve pouco do que come e grande parte é excretado em forma de fezes e urina. “São dois resíduos que a gente tem que manejar, não pode cair no rio, não pode ser disposto no solo sem controle, porque vai causar impacto ambiental”.

Outra consequência da má nutrição é que o gado passa a emitir mais Gases de Efeito Estufa (GEE). Atualmente existem empresas de nutrição animal que vendem produtos que reduzem essa emissão.

Além do ganho ambiental, a nutrição de boa qualidade também gera ganhos econômicos. Pois aproveitam-se mais os insumos e na pecuária a nutrição representa o maior custo de produção.

Consumo de água e energia deve ser racionalizado

Outra variável importante da sustentabilidade da pecuária é o consumo de água.

“Ainda somos muito deficientes nisso. Porque perdura na sociedade brasileira a cultura de água abundante barata, pois somos um país rico em recursos hídricos. Mas essa riqueza está concentrada na região norte, onde não está a maior parte da produção de alimentos, nem as grandes cidades ou grandes áreas industrializadas. No centro-sul já há uma escassez hídrica e grandes demandantes. Então temos que acabar com essa cultura de água abundante e barata. Enquanto a gente não mudar essa cultura, dificilmente vamos conseguir ganhos de eficiência hídrica nos sistemas de produção animal”, diz.

O primeiro passo para mudar essa cultura na pecuária é medir o consumo de água em todas as atividades. Saber exatamente quanta água é usada para dar de beber aos animais, lavar instalações, irrigar lavouras de grãos que serão usados como ração etc.

“São informações muito dispersas porque a gente não tem a cultura de medir. Não tem como manejar uma coisa que você não está medindo. Uma política nossa da Embrapa é primeiro medir, pois assim vai entender como usa o recurso e onde está sendo mais ou menos eficiente. E então vai intervir com boas práticas para reduzir o consumo. No Brasil, as fazendas que têm um sistema de medição do consumo de água ainda são exceção. Mas não há dúvidas de que a gente tem evoluído”.

Júlio menciona a Nestlé como exemplo: “há 2 anos e meio, determinou que todos os seus fornecedores de leite tenham hidrômetros instalados. Essa foi uma atitude pioneira e outras empresas começam a também tomar essa atitude”.

Assim como no caso da água, é fundamental saber quanta energia é necessária para se produzir proteína animal.

“Perguntar, por exemplo, quantos quilowatts se consome para produzir um quilo de carne será cada vez mais frequente. Dependendo do sistema, usa-se muita energia. A gente está um pouco mais avançado nisso porque a conta de energia chega todo mês, não é de graça. Então ele tende a não ser tão perdulário como é com a questão hídrica”.


Foto: Pecuária de corte (CNA Brasil no VisualHunt.com).

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