Manejo florestal e bioeconomia criam oportunidades para o produtor rural

Diretora-executiva da FSC Brasil aborda a importância do manejo florestal certificado e negócios que podem ser gerados nas reservas legais
Manejo florestal e bioeconomia criam oportunidades para o produtor rural

Preservar os biomas, além de ser uma exigência legal, é fundamental para a manutenção do agronegócio, devido aos serviços ambientais prestados pela floresta em pé. Mas além disso, o manejo florestal certificado e a bioeconomia podem criar oportunidades de negócios e renda para o produtor rural dentro da sua Reserva Legal.

agroRESET conversou com Daniela Teixeira Vilela, diretora-executiva da FSC Brasil, organização que difunde e facilita o bom manejo das florestas brasileiras. Na entrevista, Daniela esclarece a importância do manejo florestal para o agro e como o setor pode ser aliado da bioeconomia.

Confira abaixo.

Por que o produtor rural deve se preocupar com manejo florestal? 

O mais básico dos motivos – e talvez o principal – é a própria perenidade do negócio. Como o manejo florestal responsável respeita o ciclo natural da floresta, você consegue manter aquele mesmo pedaço de terra produzindo por muitos e muitos anos. Para cada árvore derrubada, outras da mesma espécie continuam crescendo a fim de regenerar a cobertura vegetal e servir como porta-sementes para as próximas gerações de árvores.

Existe um planejamento para a realização do manejo, considerando as espécies existentes e outras informações específicas de cada árvore, o que permite usar esses recursos naturais de forma muito mais consciente. A diversificação da produção, inclusive, é um princípio muito importante para a conservação das florestas. 

Podemos citar aqui o exemplo da Mil Madeiras Preciosas, que há mais de 20 anos explora madeira no coração da Amazônia e tem estudos que comprovam que os primeiros lugares explorados já estão regenerados. 

E existem outras vantagens, como a valorização do produto – pelos próprios produtores e por terceiros –, a diminuição dos acidentes de trabalho e o aumento da produtividade. A Amazonbai, uma cooperativa de pequenos produtores de açaí no Amapá, viu a produtividade da área aumentar após a implantação de um manejo responsável, respeitando os limites de coleta e mantendo a biodiversidade local. Além disso, os riscos aos cooperados diminuíram por conta do uso dos EPIs, que é uma exigência da certificação FSC. 

Pensando no manejo certificado, e não apenas legal, há também questões administrativas, porque a certificação não deixa de ser uma importante ferramenta para a gestão do negócio. 

Ou seja, ajuda a aprimorar a organização das documentações pertinentes, a definição das atividades, a elaboração dos planos de manejo de acordo com a realidade local, a elaboração de procedimentos e protocolos internos, entre outros pontos. E há também uma tomada de consciência ambiental e social, que fortalece os vínculos entre os próprios produtores e a comunidade na qual estão inseridos.

Como o produtor pode aproveitar a sua reserva legal para a geração de negócios da bioeconomia? O FSC tem planos de expandir a sua certificação para produtos não-madeireiros e ativos naturais? 

É fundamental que não apenas o produtor rural, mas as empresas, os governos, os consumidores finais enxerguem a floresta como algo infinitamente maior que madeira.

E mesmo quando pensamos nela é importante considerar que existem diversas espécies, com características e usos específicos. Então, é muito mais do que ipê, cedro, angelim. Essa tomada de consciência diminui a pressão sobre determinadas espécies. 

Mas além da madeira, existem inúmeros produtos florestais não madeireiros, como castanhas, óleos, frutos, cortiça. E todos os serviços ecossistêmicos, que direta e indiretamente nos trazem benefícios, inclusive econômicos.

Você pode explorar uma área conservada, por exemplo, para o turismo e outras atividades de lazer. O carbono, que já têm um mercado mais organizado e maduro. Mais a biodiversidade, a conservação do solo, a manutenção dos recursos hídricos. Somos muito dependentes da floresta. A agricultura depende da floresta, do clima. E tudo isso precisa ser valorizado e valorado de forma correta. 

E a certificação FSC já é possível para todos estes produtos e serviços da floresta. Atualmente temos castanha-do-Brasil, erva-mate, açaí, babaçu, dentre outros produtos não-madeireiros certificados FSC. Também já existem organizações certificadas que declaram seus impactos positivos no estoque de carbono, manutenção da biodiversidade e da água utilizando o procedimento de serviços ecossistêmicos do FSC. 

Como a certificação florestal contribui para que o agro se aproxime mais de um padrão ESG? 

ESG é a sigla em inglês que significa meio ambiente, social e governança. Elementos amplamente contemplados pelas normas de certificação FSC. Ou seja, organizações certificadas estão muito à frente de organizações não certificadas, por já estarem familiarizadas e implementando boas práticas ambientais e sociais, identificando e mitigando seus impactos negativos, além de promoverem engajamento com a comunidade e o crescimento local. 

A certificação FSC funciona como um meio de reconhecer empresas que atuam em respeito ao meio ambiente e ao princípio da sustentabilidade, por meio de uma produção florestal responsável. Esse reconhecimento é apresentado ao mercado por meio do selo, e investidores, stakeholders e os próprios consumidores podem identificar as empresas que contribuem para a proteção dos recursos naturais, escolhendo de forma consciente um investimento mais sustentável e valoroso.


Foto: Atividades do Plano de Manejo Florestal Sustentável do Idesam (Visualhunt).

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