Marca produz café sustentável e se torna centro de pesquisa agroflorestal

plantação agroflorestal do Café dos Contos. AgroReset.
  • Café dos Contos começou convertendo uma plantação tradicional de café em uma plantação orgânica e, em seguida, em agroflorestal;
  • O projeto já lhes rendeu, em 2019, o prêmio Prêmio Novo Agro, na categoria Sustentabilidade;
  • O sítio da marca também funciona como um centro de pesquisas em Sistemas Agroflorestais (SAFs). 

Como dois profissionais da área de humanas se tornam produtores de café agroecológico e criam um centro de pesquisa de Sistemas Agroflorestais (SAFs)?

A história do jornalista Paulo Araújo e da cientista social e mestra em educação Mariana Mota começa em 2012. Neste ano, a dupla comprou um sítio de 14 hectares no sul de Minas, no município de Monte Sião. A propriedade já tinha uma plantação convencional de café que os sócios a converteram em produção orgânica. Assim surgiu a marca Café dos Contos, em 2018.

No mesmo ano, os empreendedores começaram a transição da agricultura orgânica para os Sistemas Agroflorestais (SAFs) com assistência técnica da PRETATERRA, empresa que desenvolve agroflorestas sob demanda. A decisão aconteceu após Paulo conhecer essa prática na Fazenda da Toca, em que atua desde 2017 como coordenador de comunicação, sustentabilidade e experiências.

Inicialmente, eles implantaram um talhão agroflorestal sobre um antigo pasto. Nele, cultivam café em consórcio com macadâmia, ingá, banana e cedro australiano.Depois, no final de 2020, implantaram um novo talhão com um sistema que contém café, citricultura e plantas nativas. Em ambos, cultivam café arábica, da variedade catucaí amarelo.

A experiência tem sido tão bem sucedida que o Café dos Contos ganhou, em 2019, o Prêmio Novo Agro, na categoria Sustentabilidade. A premiação é promovida anualmente pelo banco Santander e pela Esalq-USP para reconhecer iniciativas inovadoras no agro.

Sobre as vantagens do Sistema Agroflorestal em relação à agricultura orgânica, Paulo comenta:

“As agroflorestas formam sistemas mais resilientes e equilibrados. O próprio manejo, com aproveitamento de toda a biomassa que o sistema fornece, o torna menos dependente de fertilizantes externos. A biodiversidade cria uma cadeia de controle biológico que faz com que se torne mais resiliente contra pragas e doenças. Ao passo que uma monocultura orgânica é mais suscetível a uma praga”.

Mariana e Paulo planejam continuar sendo pequenos produtores, mas têm planos para expandir um pouco mais. Sua área produtiva atual soma aproximadamente 2 hectares e a sua propriedade dispõe de mais 5 hectares delimitados para expansão. Fora isso, uma parceria com a proprietária de um terreno vizinho (Denise Alves, ex-diretora de Sustentabilidade da Natura) permitirá aumentar a área de produção em cerca de mais 7 hectares.

No atual momento, o Café dos Contos está realizando a primeira colheita de sua safra agroflorestal. Dessa safra, será comercializada um “nano lote”, mas o seu principal objetivo é avaliar a sua qualidade e características.

“A intenção maior dessa primeira safra agroflorestal é fazer uma análise sensorial e entender melhor a qualidade da bebida, dos atributos do café agroflorestal”, Paulo explica.

Centro de pesquisa

Além de ser uma marca de café agroecológico, o Café dos Contos atua também como um centro de pesquisa sobre Sistemas Agroflorestais (SAFs).

Com essa finalidade, oficializaram em março de 2021 uma parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas (IFSULDEMINAS) e um grupo de estudos, o GEcaféS (Grupo de Estudos em Cafeicultura Sustentável).

“Por meio dessa parceria, a gente transformou a nossa área produtiva em um campo de pesquisa agroflorestal começando pelo solo. As pesquisas já estão em andamento”, diz Paulo.

No momento, o foco é analisar os atributos químicos, físicos e biológicos do solo em diferentes experimentos.

São considerados dois indicadores: 1) macrofauna (invertebrados visíveis do solo, como minhocas e insetos); 2) microbiologia (microorganismos presentes nas amostras). No futuro, irão também pesquisar a resiliência dos SAFs em relação a pragas e doenças e a sua capacidade em reter água.

Atualmente, são seis experimentos que comparam os SAFs a outros sistemas de uso da terra. E assim comparam a qualidade do solo em seis contextos:

  • Agrofloresta mais consolidada (implantada em 2018)
  • Agrofloresta mais nova (implantada no final de 2020)
  • Área de pastagem antiga e degradada
  • Área de restauro natural: que foi cercada para deixar a natureza se regenerar sozinha
  • Floresta primária em pé: já consolidada e cercada há muitos anos
  • Área de reflorestamento recém-inaugurada (plantio de mudas começou em janeiro de 2021)

Paulo fala sobre a importância da pesquisa:

“É fundamental porque confere credibilidade ao sistema. A agrofloresta é um tipo de agricultura ancestral, mas que há pouco mais de uma década tem ganhado um contorno científico maior. Ainda existem muitas respostas a serem aprofundadas e é muito importante a gente ter o apoio e a parceria com a comunidade científica e com uma instituição bastante renomada. Isso nos ajuda a encontrar respostas para os desafios das agroflorestas.”


Foto: Divulgação (Café dos Contos)

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