“Muralhas verdes” regeneram terras degradadas e geram empregos

O objetivo é combater a desertificação e as mudanças climáticas gerando também ganhos sociais e econômicos
Grande Muralha Verde da África. Imagem de satélite da Nasa.
  • Muralhas verdes buscam reverter o desmatamento e a desertificação por meio de plantio de árvores, Sistemas Agroflorestais (SAFs) e bioindústria florestal;
  • Além dos ganhos ambientais, esses projetos produzem impacto social positivo, como geração de renda e trabalho decente e redução do êxodo rural;
  • A muralha verde mais conhecida é a da África, prevista para ser concluída em 2030. Também existem projetos como esse na Índia e no Brasil.

Aliando o plantio de árvores nativas e implementação de projetos de sistemas agroflorestais e bioindústria florestal, projetos de muralha verde ao redor do mundo estão combatendo a desertificação, o desmatamento e as mudanças climáticas. Além de gerar negócios e empregos rurais. Conheça três projetos já em andamento na China, na Índia e no Brasil.

Um projeto ambicioso: a Grande Muralha Verde da África

O Saara é o maior deserto do mundo e está crescendo. Nos últimos 100 anos, se expandiu em mais de 10% e hoje cobre uma área de quase 9 milhões de quilômetros quadrados. Esse avanço contribui para as mudanças climáticas e o aquecimento global, além de acabar com a fonte de subsistência de milhões de pessoas e causar o êxodo rural.

O Saara tem se expandido para a zona do Sahel, ao sul do deserto. Um cinturão semi-árido de 5.400 quilômetros de extensão e 500 a 700 quilômetros de largura que começa no oceano Atlântico e termina no Mar Vermelho, atravessando 11 países. Conforme a desertificação avança, colocam-se em risco as 135 milhões de pessoas que dependem das atividades rurais nessa terra degradada, segundo estimativa da ONU.

Em 2007, a União Africana lançou uma iniciativa que mobiliza vinte países africanos: a Grande Muralha Verde. Até 2030, pretende-se plantar árvores em toda a faixa a zona do Sahel para conter a desertificação e seus efeitos ambientais, sociais e econômicos. Assim, pretende-se restaurar 100 milhões de hectares, atualmente improdutivas. Essa muralha terá 15 quilômetros de largura e quase 8 mil quilômetros de extensão e será a mais longa estrutura viva construída pelo homem.

Na realidade, o projeto vai muito além de plantar árvores. Entre as medidas adotadas pelos países envolvidos, estão reflorestamento, agroflorestas, criação de terraços e conserto de dunas (que impede o movimento da areia para permitir que a vegetação natural se estabeleça). Além disso, estão sendo tomadas medidas para preservar o abastecimento de água.

Entre os benefícios esperados com esse projeto estão:

– Abaixar a temperatura da região;

– Absorção de 250 milhões de toneladas de carbono;

– Criação de 10 milhões de empregos;

– Tornar o solo agriculturável;

– Produzir alimento para quem vive em regiões com altos índices de seca e fome.

Desafios da iniciativa

O projeto possui desafios à altura da sua grandiosidade. A zona do Sahel atravessa 11 países, o que exige a colaboração de diferentes governos e nações, tornando a gestão complexa. Em alguns países, especialmente na África Central, há grupos terroristas que representam um obstáculo importante.

Fora isso, o financiamento vinha sendo esporádico e abaixo do necessário desde o lançamento da iniciativa. Felizmente, em janeiro de 2021 o projeto recebeu a injeção de US$ 14 bilhões da França, do Banco Mundial e de outros doadores. Esse valor é quase metade dos US$ 33 bilhões que se estima serem necessários para atingir a meta em 2030.

Finalmente, a ideia original de criar um muro contínuo se mostrou inviável após contatar-se que foram plantadas árvores onde não havia quem cuidasse delas. Esse problema foi contornado focando-se em criar iniciativas locais para preservar árvores já existentes adotando-se métodos tradicionais das comunidades locais.

Quais são os resultados da iniciativa até agora?

Lançado em 2007 e faltando apenas 9 anos para o prazo estabelecido, até agora apenas 4 milhões de hectares foram restaurados, equivalente a 4% da meta. Esse número é maior se forem contadas as áreas fora das zonas oficiais da Grande Muralha Verde. Neste caso, já se recuperaram 20 milhões de hectares ao todo. Com o financiamento recebido em janeiro deste ano, o projeto deve ganhar novo impulso.

Do ponto de vista social e econômico, a ONU calcula que já foram criados 335 mil empregos no meio rural e que o cultivo de frutas e produtos florestais rendeu US$ 90 milhões.

Grande Muralha Verde da Índia

A Grande Muralha Verde na África serviu de inspiração para uma iniciativa semelhante na Índia. Em 2019, o ministro do Meio Ambiente, Florestas e Mudanças Climáticas da Índia, Prakash Javadekar, anunciou que o país pretende restaurar cinco milhões de hectares de terras degradadas até 2030.

Isso significa criar um cinturão verde de 1.400 km de comprimento e 5 km de largura para restaurar essas terras e atuar como uma barreira contra a tempestade de poeira que vem dos desertos a oeste da Índia e do Paquistão.

Além disso, o governo indiano pretende alcançar, também até 2030, a “degradação florestal líquida zero”. Isso significa restaurar a mesma quantidade de terra que é degradada. Calcula-se que mais de 96 milhões de hectares das terras da Índia já foram degradadas, o equivalente a quase 30% do país. Em alguns estados, como Gujarat, Rajastão e Déli, mais de 50% das terras já foram degradadas e estão sob risco de desertificação.

Corredor de Biodiversidade do Araguaia

Mais um projeto semelhante já está em andamento no Brasil. Desenvolvido pela Fundação Black Jaguar, o “Corredor de Biodiversidade do Araguaia” conectará a floresta amazônica ao cerrado, ao plantar árvores nativas às margens dos rios Araguaia e Tocantins. Assim, ele atravessará seis estados brasileiros: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Pará e Maranhão

O corredor, cuja primeira etapa já foi finalizada, terá 2.600 quilômetros de extensão e 40 quilômetros de largura, permitindo reflorestar 1 milhão de hectares que hoje estão degradados ou desmatados. Para isso, serão plantadas 1,7 bilhões de árvores.

24 mil imóveis rurais estão localizados na área abrangida pelo projeto e 96% deles são propriedades privadas. Para viabilizá-lo, estão sendo realizadas parcerias com os proprietários locais. O que facilita isso são as normas do Código Florestal que exigem a preservação e recuperação de parte dessas propriedades. Calcula-se que mais de 13 mil dessas propriedades rurais tenham déficit de áreas de preservação permanente (APP) e reserva legal e precisam se regularizar.

Outro estímulo para os proprietários rurais se engajarem com esse projeto é um estudo de viabilidade que conclui que a recuperação da vegetação pode gerar US$ 21,1 bilhões em em 50 anos, por meio da implantação de agroflorestas regenerativas. Prevê-se ainda a criação de 38 mil empregos, a redução de 527 milhões de toneladas na erosão do solo e a captura de 262 milhões de toneladas de carbono.

Muralha Verde no Arco do Desmatamento da Amazônia

Clique aqui para conhecer o projeto de Muralha Verde do AgroReset.


Foto: imagem de satélite da Nasa exibe a Grande Muralha Verde da África (Wikimedia Commons).

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