A pecuária é o grande vilão do meio-ambiente?

Especialista da Embrapa comenta a sustentabilidade da atividade pecuária no Brasil e desfaz mitos
Fazenda de gado nelore no Mato Grosso. Pecuária sustentável. AgroReset.

Como a pecuária pode ser mais sustentável e contribuir para a preservação e regeneração do meio-ambiente? Para entender essa questão, AgroReset entrevistou Júlio Cesar Pascale Palhares, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste e especialista em recursos hídricos. Ele explica aspectos fundamentais para se avaliar a sustentabilidade e o impacto ambiental da atividade pecuária. Essa é a primeira de três matérias baseadas que serão publicadas nas próximas semanas e que indicam alguns caminhos para a pecuária sustentável.

No Brasil atual, geralmente repetem-se dois chavões. De um lado, se diz que “a pecuária é o grande vilão do meio-ambiente”. De outro, afirma-se que “o agronegócio brasileiro é o mais sustentável do mundo”. O que há de verdade ou mentira em cada uma dessas afirmações? Segundo Júlio:

“Para se dizer que algo é o grande vilão da sustentabilidade, teria que ter métricas que avaliam todas as atividades econômicas do país. Esse estudo nunca aconteceu. Então não existe a régua do que dizer o que realmente é mais ou menos sustentável. O próprio agronegócio tem uma narrativa muito forte de que é ‘o agro mais sustentável do mundo’. O que também não tem base alguma porque ninguém mediu o agro do mundo inteiro para ranquear os países. [Essas afirmações] são narrativas, nada mais do que isso”.

Para avaliar a sustentabilidade de uma cadeia produtiva é preciso ter métricas medidas por uma terceira parte imparcial, com certificadoras e auditorias. Assim é possível comparar diferentes setores produtivos em relação a uma mesma métrica ou conjunto de métricas. Enfim, estabelece-se uma “régua” para avaliação e comparação.

A agropecuária é uma grande emissora de gases de efeito estufa, mas é necessário avaliar outras métricas

Entre as métricas que podem ser adotadas para avaliar a sustentabilidade de uma cadeia produtiva estão as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Essa é uma métrica que tem sido muito impulsionada pelo ESG e pelo Acordo de Paris.

Nesse sentido, o Brasil realiza o Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa, que estima as emissões de cinco setores: Energia, Processos Industriais, Agropecuária, Uso da Terra e Florestas e Tratamento e Disposição de Resíduos. Segundo o relatório, de fato a atividade agropecuária é uma das maiores emissoras do país.

Júlio explica a origem dessas emissões:

“Na produção animal, a gente fala em duas grandes emissões. Uma é inerente ao animal. Bovinos, caprinos e ovinos emitem naturalmente metano. Outra é a emissão desses gases através dos seus resíduos. Todos os animais fazem isso. Ela é computada quando se fala em produção animal.”

“Outra emissão computada à pecuária é a mudança do uso da terra. Ou seja, quando se queima a floresta para colocar animal. E daí vem muito a questão dos bovinos de corte na Amazônia. Onde você tem a queima da floresta para ocupar com bovinos para eles trazerem alguma fertilidade ao solo até você conseguir plantar soja”.

Nesse critério, a atividade agropecuária é uma das maiores emissoras do Brasil. Globalmente, a produção de alimentos representa de 25% a 30% das emissões totais. Sendo que há outros setores muito emissores, como produção de energia, indústria do cimento e indústria petrolífera.

Mesmo assim, Júlio enfatiza que ainda não há como dizer que uma atividade é mais ou menos sustentável do que outra “porque a sustentabilidade não trata somente de emissões”. É preciso considerar muitas outras métricas, como uso da água e de outros recursos naturais e biodiversidade. Ainda não há um estudo, nacional ou global, que consolide essas métricas e permita criar um ranking de sustentabilidade de diferentes setores produtivos.

“O que dá para dizer é que, sim, a pecuária é uma grande emissora dentro do rol de emissões brasileiros. No mundo, ela tem uma representatividade também. Em torno de 14% das emissões globais são atribuídas à pecuária. Isso é um dado da FAO. Mas, para a gente expandir isso para a sustentabilidade como um todo, há um caminho muito longo a ser seguido”.

No caminho para a pecuária sustentável, é preciso fazer escolhas

Outra questão importante a ser considerada é que nem sempre é possível atingir níveis ótimos em diferentes métricas relativas à sustentabilidade ao mesmo tempo.

Por exemplo, em uma determinada área de produção pode-se propor uma prática que torna o uso de água mais eficiente, mas que ao mesmo tempo proporciona maior emissão. Ou vice-versa. É o chamado trade-off.

“Nem sempre você consegue ganhar em tudo. Tem que fazer uma análise. Aonde que a perda tem o menor prejuízo? Vamos supor, se estou em uma região de oferta hídrica de abundância, ser menos eficiente no uso da água não teria um impacto tão grande. Já se estou em uma região de escassez hídrica, posso ter que emitir mais para produzir aquele alimento e usar menos água. Na prática, esse tipo de situação é muito comum. Você não vai ganhar sempre e vai ter que tomar decisões”, conclui Júlio.

Acompanhe a série “Caminhos para a Pecuária Sustentável”

Essa é a primeira matéria da série. Nas próximas semanas, AgroReset publicará as partes 2 e 3. Acompanhe o portal e também as redes sociais para não perder o conteúdo: Instagram | Facebook | LinkedIn.

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